((( Trilha: "Voa Bicho" - Milton Nascimento & Maria Rita Mariano )))

Não se fala em outra coisa.
Agora é Oscar pra cá. Oscar pra lá. Cidade de Deus. Fernando Meirelles. Em qualquer canal, em qualquer rádio, em qualquer jornal ou em qualquer revista. Eu não poderia fugir à regra. Cá estou falando de Oscar também.

Mas não quero fazer apologia a nenhum filme, mesmo torcendo pra que o nosso "cinema brasileiro" possa reeber pelo menos um prêmio técnico, já que não dá pra competir com Peter Jackson e seu fantástico Senhos dos Anéis. O que quero comentar, é como me entristece este espírito de São Tomé que a maioria dos brasileiros tem. Aquela coisa de o produto nacional ter que ser reconhecido "lá fora" pra depois ser valorizado aqui dentro.
Com Cidade de Deus não foi diferente. Quando estrou por aqui, teve muitas críticas negativas, na contramão do que a (grande) maioria das pessoas pensava. Fossem elas críticas de cinema ou não. Sem falar do sem número de pessoas que não assistiram e que agora correm pro cinema e pras locadoras pra poder ver o filme antes que ele concorra no domingo. Chega a ser vergonhoso isso.
A nossa música não fica longe desta situação. Vários artistas da MPB fazem sucesso no exterior e aqui não vendem nada, ou quase nada. A literatura também. Vejam o caso do Paulo Coelho: a crítica sempre caia de pau em cima dele, mas precisou vender milhões de cópias de seus livros no exterior, receber inúmeros prêmios internacionais pra virar imortal da ABL, sendo que até o Sarney e o Roberto Marinho já eram a muito mais tempo...
Esse preconceito dos brasileiros contra o nosso próprio produto nacional não ajuda em nada a tentativa de melhorar a nossa imagem fora daqui. Aliás, bela imagem a de um povo que nem patriota é, que não valoriza os seus símbolos nacionais, a não ser que esteja longe de casa e usa a bandeira como um cajado pra se manter em pé. Que lindo! ¬¬
Eu tô aqui fazendo minha torcida pro Oscar, mas tem outra coisa relacionada a cinema que tá me tirando o sono... imaginar o Christian Bale (do filme American Psycho) no uniforme do Batman. As filmagens começam em março!

Imaginem esta carinha, ou esta, ou este corpinho, usando aquele uniforme-fetiche-todo-preto-parecendo-couro... pronto! Perverti um dos meus heróis favoritos! Desculpa Bob Kane...

Publicado pelo Mau às 13:23
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((( Trilha: "Numb" - Linkin Park )))

Teria tanta coisa boa pra escrever sobre meu final de semana longe do carnaval, mas algumas coisas não tão legais que aconteceram e que continuaram a acontecer no dia de hoje acabaram se mostrando mais fortes e se sobressaindo. Não adianta, eu sou assim. Me abato com pouca coisa... na maioria das vezes eu não demontro, mas quem me conhece, sabe que meu olho não tá brilhando nem meu humor é o mesmo quando esse tipo de coisa aconteçe.
Aí estava lendo uma crônica da Martha Medeiros que fala exatamente sobre o que eu tô sentindo... aliás, ela conseguiu descrever a sensação, melhor que eu mesmo! Sabe aqueles textos que você tem certeza que foram feitos pra você? Pois é... só que esse não foi feito pra mim, pois foi escrito em 2001.
O texto está no livro que ganhei da Taty na minha formatura. Montanha Russa é uma compilação de várias crônicas dela, escritas entre 2001 e 2003. A que me refiro se chama "As Torres de Dentro" (o texto na íntegra, tá no final do post pra não dar confusão com quem não gosta dela...) e tem como pano de fundo, a queda do World Trade Center, pra falar das torres que construímos dentro de nós e que algumas pessoas acabam destruíndo por serem muito "vistosas".
A sensação que eu tenho é que algumas destas torres que eu tinha dentro de mim, vieram abaixo... e não adianta contratar mão-de-obra especilizada, porque quem tem de reconstruí-las sou eu mesmo.
Pensei várias vezes em parar de escrever aqui. "Tirar férias da vida", inclui o blog também, Taty. Mas ainda não sei se vou levar isso até o fim. É que ao mesmo tempo em que me sinto vulnerável escrevendo o que eu penso, sei que é minha válvula de escape. Mas não estou escrevendo para que sintam pena de mim ou que coloquem a mão no meu ombro. É um desabafo, apenas. Daqueles que você faz sozinho no teu quarto. Daqueles que te fazem chorar, mas que pra mim só fica um nó, que eu nem consigo desatar da garganta.
Se isso tem a ver com amor? Não só isso... tem mais coisas. Coisas que vão se somando. Coisas que vão se grudando igual parasitas na mente da gente e que por mais que tentemos soltá-las, elas voltam e se mostram bem reais num momento de fraqueza. Como que chutando aquele último tijolinho que tinha sobrado da tua torre.
E pra aumentar minha sensação se vazio, tem essa saudade do Léo, meu priminho que nasceu no dia 25 de janeiro e que tá na foto lá de cima e que foi a única coisa boa que apareceu aqui em casa neste carnaval.
Alá-lá-ô...
As torres de dentro, Martha Medeiros
Não tenho como escapar: coluna na quarta-feira, um ano após os atentados, vou falar sobre o quê? Sobre o Red Hot Chili Peppers? A imprensa às vezes vira refém de certas datas. Tal qual a gente. Comemoramos secretamente o aniversário do Primeiro beijo, da primeira transa, de todas as primeiras coisas bacanas que nos aconteceram. E das coisas ruins também, das vezes em que as torres que construimos dentro de nós foram derrubadas.
Cada sonho nosso foi construído andar por andar, e teve vezes em que ultrapassamos as nuvens, erguemos nossos prédios do milênio, mais altos que qualquer prédio de Cingapura, Shangai, Nova York. A psicanálise fala em castelos. É mais ou menos isso: sonhos aparentemente concretos.
Já tive torres internas que foram ao chão. Torres altas demais para mim, torres que nem chegaram a ficar concluídas (as de dentro nunca se concluem), torres que me exigiram esforço e que me deram prazer, até que alguém, com uma frase, ou com um gesto, as fez virem abaixo. Tinha gente dentro, tinha eu.
Torres sao visíveis, monumentais: viram alvo. Um projeto empolgante demais, uma paixão incontrolável demais, um desejo ardente demais, idéias ameaçadoras demais: tudo isso sai da linha plana da existência, nos coloca em evidência, a gente acha que os outros não percebem mas percebem, e que ninguém se assusta, mas se assustam. Quem nos derruba? A nossa vulnerabilidade.
Tem gente que perde um grande amor. Perde mais de um, até. E perde filhos, pais e irmãos. Tem gente que perde a chance de mudar de vida. E há os que perdem tempo. Os anos passam cada vez mais corridos, os aniversários se repetem. Tem gente que viu sua empresa desmoronar, sua saúde ruir, seu casamento ser atingido em cheio por um petardo altamente explosivo. Tem gente que achava que iria ter chance de estudar mais tarde e não estudou. Os que acharam que iriam ganhar uma medalha por bom comportamento, e não eceberam nem um tapinha nas costas.
E no entanto ainda estamos de pé, porque não ficamos apenas contando os meses e os anos em que tudo se passou. Construimos outras torres no lugar. Não ficamos velando eternamente os atentados contra nossa pureza original. As novas torres que erguemos dentro serão sempre homenagens póstumas as nossas pequenas mortes e uma prova de confiança em nossas futuras glórias.
Publicado pelo Mau às 21:21
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